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Manejo com pré-emergentes: decisões práticas para reduzir escapes na lavoura

O manejo de plantas daninhas começa antes de sua emergência. 

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O manejo de plantas daninhas começa antes de sua emergência. Os herbicidas pré-emergentes atuam em banco de sementes ou plântulas em estádio inicial, contribuindo para que a cultura se estabeleça com menor interferência no começo do ciclo.

A eficiência desse manejo, entretanto, não depende de uma única decisão. O princípio ativo utilizado, as espécies presentes na área, a umidade do solo, a presença ou não de palhada em diferentes densidades e o momento da aplicação em relação à semeadura podem influenciar o resultado.

É importante destacar que a eficácia no controle das plantas daninhas não depende exclusivamente do ingrediente ativo. A escolha e a qualidade dos co-formulantes são determinantes para o sinergismo da formulação, justificando as diferentes respostas de controle registradas para produtos que compartilham a mesma molécula de pré-emergente.

Este estudo comparou 15 tratamentos pré-emergentes com diferentes princípios ativos isolados ou em associação. Foi avaliado o percentual de controle alcançado sobre 11 espécies de plantas daninhas do cerrado brasileiro, considerando duas modalidades de aplicação: I) antes da semeadura, no sistema Aplique-e-Plante; e II) logo após a semeadura, no sistema Plante-e-Aplique. De modo a identificar:

  • As estratégias com maior consistência de controle entre as espécies e modalidades de aplicação
  • As plantas daninhas com maior dificuldade de controle e, consequentemente, maior potencial de escape
  • As diferenças de desempenho entre os sistemas de manejo Aplique-e-Plante e Plante-e-Aplique
  • Os pontos de atenção e as limitações técnicas observadas nas estratégias avaliadas.



Identifique as espécies presentes na área

O primeiro passo é reconhecer quais plantas daninhas precisam ser controladas. Isso é importante porque uma mesma estratégia pode apresentar excelente desempenho sobre determinadas espécies e controle insuficiente sobre outras.

Na avaliação, foram consideradas duas gramíneas: capim-carrapicho (Cenchrus echinatus) e capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) e nove folhas largas/demais espécies: caruru (Amaranthus spp.), trapoeraba (Commelina spp.), corda-de-viola (Ipomoea spp.), erva-de-santa-luzia (Chamaesyce hirta), erva-de-touro (Tridax procumbens), guanxuma (Sida spp.), leiteiro (Euphorbia heterophylla), picão-preto (Bidens pilosa) e vassourinha-de-botão (Borreria/Spermacoce spp.).

A escala de controle utilizada nos dados variou em quatro níveis: 50%, 70%, 85% e 95%, sugerindo uma escala de avaliação visual em classes (por exemplo, do tipo utilizada pela ALAM/SBCPD), em que valores acima de 90% são considerados controle excelente, entre 80% e 90% bom controle, entre 60% e 80% controle regular (insuficiente para recomendação isolada) e abaixo de 60% controle insatisfatório.


Dê atenção especial às espécies mais difíceis

Entre as 11 espécies avaliadas, a vassourinha-de-botão apresentou as menores médias de controle: 78,7% no Aplique-e-Plante e 78,2% no Plante-e-Aplique. A erva-de-touro também apresentou maior dificuldade de controle, com médias de 83,3% e 83,2%, respectivamente. Em ambos os casos, os resultados ficaram abaixo de 85%, mesmo considerando conjuntamente os diferentes tratamentos.

As duas gramíneas avaliadas, capim-carrapicho e capim-pé-de-galinha, apresentaram desempenho considerado bom. No Aplique-e-Plante, a média foi de 84,3%. No Plante-e-Aplique, chegou a 87,1%.

Já o caruru apresentou a maior média de controle dentro do conjunto avaliado, alcançando 95% nas duas modalidades e sem registros inferiores a 85%.


Tabela 1- Média de controle (%) de cada produto para cada espécie de planta daninha, considerando os 15 tratamentos

Planta daninha
Grupo botânico
Média Aplique e plante (%)
Média Plante e aplique (%)
Vassourinha-de-botão
Folha larga
78.7
78.2
Erva-de-touro
Folha larga
83.3
83.2
Capim-carrapicho
Gramínea
84.3
87.1
Capim pé-de-galinha
Gramínea
84.3
87.1
Corda-de-viola
Folha larga
87.7
87.1
Erva-de-santa-luzia
Folha larga
87.7
87.1
Leiteiro
Folha larga
87.7
87.1
Guanxuma
Folha larga
89.3
88.9
Picão-preto
Folha larga
90.3
90.0
Trapoeraba
Folha larga
91.3
91.1
Caruru
Folha larga
95.0
95.0


Esses resultados mostram que o manejo precisa ser direcionado pelas espécies de maior dificuldade. Quando vassourinha-de-botão, erva-de-touro ou uma das gramíneas avaliadas estiverem presentes, o risco de escape deve receber atenção especial na definição da estratégia.


Busque mecanismos de ação complementares
De forma geral, os tratamentos compostos por dois ou três princípios ativos apresentaram maior amplitude e consistência de controle do que parte dos tratamentos com apenas um princípio ativo.

A associação de mecanismos de ação complementares pode reduzir a possibilidade de uma espécie menos sensível a um dos componentes escapar do controle. Essa complementaridade é especialmente importante quando a área apresenta uma comunidade diversificada, formada por gramíneas e folhas largas.

Entretanto, o número de princípios ativos não deve ser analisado isoladamente. O resultado reforça que a decisão precisa considerar o espectro de ação, as espécies presentes, a sensibilidade de cada espécie, a consistência do controle e os possíveis pontos de fragilidade.

Portanto, utilizar mais de um princípio ativo não garante, por si só, melhor resultado. É necessário que os mecanismos de ação sejam complementares e adequados às plantas daninhas presentes na área.


Aplique-e-Plante ou Plante-e-Aplique?
A escolha entre Aplique-e-Plante e Plante-e-Aplique, não deve ser baseada apenas na expectativa de maior controle. Outros aspectos precisam ser considerados, como as condições de umidade do solo e o risco de fitotoxicidade para a cultura em cada modalidade, além do trabalho operacional de cada produtor.

A tabela a seguir (Tabela 2), apresenta a média de controle de cada produto sobre as 11 espécies avaliadas, em ambas as modalidades, ordenada da maior para a menor eficácia média. A coluna "Pior nota" indica o menor percentual de controle obtido pelo produto entre todas as espécies, evidenciando a espécie de maior fragilidade (escape) de cada tratamento. O tratamento Zidua Pro (Saflufenacil + Imazetapir + Piroxassulfona) não possui registros de controle para a modalidade Plante-e-Aplique em nenhuma das 11 espécies avaliadas.


Tabela 2- Média de controle (%) de cada produto sobre as 11 espécies avaliadas, em ambas as modalidades.


Trat.
Princípio ativo
Média Aplique e plante (%)
Média Plante e aplique (%)
Pior nota (%)
3
Sulfentrazona + Clomazona
94.1
94.1
85
7
Flumioxazina
94.1
94.1
85
10
Clorimurom-etílico + Flumioxazina + Imazetapir
93.2
93.2
85
12
Imazetapir + Flumioxazin + Diclosulam
93.2
93.2
85
14
Saflufenacil + Imazetapir + Piroxassulfona
93.2
s/ dado
85
15
S-metolacloro + Sulfentrazona
92.3
92.3
85
8
Imazetapir + Flumioxazina + S-metolacloro
91.4
91.4
85
9
Imazetapir + Flumioxazina
91.4
91.4
85
4
Sulfentrazona + Diuron
87.7
87.7
70
13
Bixlozone
86.4
88.2
70
6
Piroxasulfona + Flumioxazina
85.5
87.3
70
11
Fomesafem + S-metolacloro
85.0
86.8
70
1
Diclosulam
83.2
83.2
50
5
Clomazona
74.1
75.9
50
2
S-metolacloro
64.1
65.9
50


Legenda de cores: verde escuro = controle excelente (≥95%), verde claro = bom controle (85–94%), amarelo = controle regular (70–84%), vermelho = controle insuficiente (<70%)

Nota-se uma tendência (embora sutil, restrita a poucas espécies dentro de cada tratamento) de leve vantagem da modalidade Plante-e-Aplique para os produtos à base de clomazona, piroxasulfona + flumioxazina, fomesafem + S-metolacloro e bixlozone, possivelmente relacionada a uma melhor incorporação do produto ao solo quando aplicado sobre a superfície já semeada e, em geral, mais úmida/recém-mobilizada, favorecendo a formação da barreira herbicida.

Com base nas médias obtidas, o relatório conclui que a escolha entre modalidade de aplicação, há ausência de diferenças relevantes entre Aplique-e-Plante e Plante-e-Aplique para a maioria dos produtos sugere que, nas condições avaliadas (possivelmente sob boa umidade de solo e ausência de grandes intervalos de tempo entre as operações), o momento da aplicação em relação à semeadura não é o fator determinante da eficácia — o principal fator diferenciador continua sendo o princípio ativo e sua combinação.

De forma geral, a escolha da modalidade de aplicação (Aplique-e-Plante ou Plante-e-Aplique) mostrou impacto limitado na eficácia média dos produtos avaliados, podendo a decisão ser baseada primariamente em outros critérios como a fitotoxicidade na cultura, quando realizado nas duas modalidades.


Destaques técnico

Sulfentrazona + Clomazona e Flumioxazina destacam-se como os ingredientes ativos de melhor e mais consistente desempenho geral, sendo recomendados como referência de controle para a maioria das espécies avaliadas, em ambas as modalidades de aplicação.

Os resultados indicam, de forma geral, que produtos formulados com dois ou três princípios ativos em associação apresenta maior consistência e amplitude de controle do que produtos com princípio ativo único, especialmente sobre o conjunto diversificado de folhas largas presente neste estudo

S-metolacloro isolado não deve ser recomendado isoladamente em áreas com pressão relevante de folhas largas, sendo mais indicado seu uso em mistura com parceiros de espectro complementar. Clomazona apresenta limitações semelhantes, sobretudo sobre leiteiro e vassourinha-de-botão.

Vassourinha-de-botão e erva-de-touro são as espécies mais desafiadoras do conjunto avaliado e devem receber atenção especial na escolha do programa de manejo, independentemente do produto utilizado.


Planeje o manejo das possíveis fragilidades

As combinações com 50% de controle representam os principais pontos de fragilidade. Para essas situações, faz se necessário a associação com outro princípio ativo de espectro complementar ou o uso de herbicida em pós-emergência direcionado à espécie.

Nos casos com 70% de controle, precisamos avaliar o resultado dentro da pressão de infestação e de um programa com outros mecanismos de ação.

A análise deve responder:

  • Quais espécies estão presentes na área?
  • Quais apresentaram menor controle na avaliação?
  • Qual foi a pior nota da estratégia sobre essas espécies?
  • Existem resultados de 50% ou 70% para alguma espécie prioritária?
  • A associação apresenta espectro complementar?
  • Como estão as condições de umidade do solo?
  • Qual modalidade será utilizada em relação à semeadura?
  • A fitotoxicidade na cultura precisa ser considerada?
  • Há necessidade de associação ou manejo em pós-emergência para as possíveis fragilidades?


Autores:
Autieres Teixeira Faria
Douglas Teixeira Saraiva
João Guilherme Sarni
José Vitor Rocha - PDI 3tentos

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