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O que as culturas de inverno deixam para a soja além da palhada?

As culturas de inverno continuam contribuindo para o sistema mesmo após a colheita. Quando seus resíduos permanecem na área, ajudam a proteger o solo e participam da ciclagem de nutrientes, podendo favorecer a cultura implantada em sucessão.

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Entre as culturas de inverno estão o trigo (Triticum aestivum L.) e a canola (Brassica napus L.). Durante o desenvolvimento, essas plantas absorvem nutrientes do solo e os acumulam em sua biomassa. Após a colheita, folhas, caules e raízes que permanecem na área são decompostos pelos organismos do solo. Nesse processo, parte dos nutrientes retorna ao solo e pode ficar gradualmente disponível para as culturas seguintes. A velocidade de decomposição e de liberação dos nutrientes varia conforme a composição dos resíduos, especialmente sua relação carbono/nitrogênio, e as condições de temperatura, umidade e atividade biológica do solo. Esse processo é cientificamente sustentado, mas a disponibilidade dos nutrientes não é imediata nem igual para todos os elementos.


Figura 1 - Cultura do trigo

Fonte: Biotrigo genética


Figura 2 - Cultura da canola

Fonte: Terra de cultivo



Diferenças entre as palhadas do trigo e da canola e qual escolher

A alternância entre trigo e canola ao longo das safras de inverno aumenta a diversidade do sistema e pode contribuir para o manejo de algumas plantas daninhas e doenças. Esse efeito, entretanto, não é automático: depende do histórico do talhão e de a cultura incluída na rotação não ser hospedeira do organismo que se pretende reduzir.


A palhada do trigo apresenta relação carbono/nitrogênio (C/N) mais elevada e tende a se decompor lentamente, permanecendo sobre o solo por mais tempo. Enquanto está presente, essa cobertura ajuda a reduzir as variações de temperatura, retardar o ressecamento da superfície e proteger o solo contra o impacto direto das gotas de chuva.


Os resíduos da canola, por sua vez, geralmente apresentam decomposição mais rápida, favorecendo uma ciclagem mais rápida dos nutrientes, mas permanecendo por menos tempo na superfície. A intensidade desses efeitos depende da quantidade e da distribuição da palhada, de sua composição e das condições de temperatura e umidade.


A alternância entre trigo e canola ao longo das safras de inverno aumenta a diversidade do sistema e pode contribuir para o manejo de algumas plantas daninhas e doenças. O cultivo do trigo mantém a área ocupada e coberta durante o inverno, condição que pode reduzir a ocorrência de buva em comparação ao pousio. A canola, por pertencer a outra família botânica, também pode ampliar as opções de manejo de gramíneas, como o azevém, desde que sejam considerados os herbicidas registrados e a recomendação técnica.

Os benefícios fitossanitários da rotação, entretanto, dependem dos organismos presentes no talhão. A alternância somente ajuda a interromper determinado ciclo quando a cultura inserida não é hospedeira do patógeno ou da praga. Por isso, possíveis efeitos sobre fungos e nematoides precisam ser avaliados individualmente. A palhada remanescente também protege o solo do impacto direto das gotas de chuva, mas sua influência na dispersão de esporos varia conforme a doença considerada.


A canola tem raiz pivotante profunda que descompacta o solo e cria bioporos verticais, facilitando o enraizamento da soja ou do milho no verão. Já o trigo, com sistema fasciculado, atua na camada de 0 a 20 cm, melhorando a agregação e a maciez do solo na semeadura.



Nutrientes que permanecem no sistema

A canola é a campeã da ciclagem: extrai nutrientes de camadas profundas e os traz à superfície, retendo em seus resíduos cerca de 40% do Nitrogênio, 30% do Fósforo e até 85% do Potássio absorvidos, liberados rapidamente à cultura de verão assim que a palhada degrada, além de ciclar grandes quantidades de Enxofre e Boro. 


No trigo, a elevada relação carbono/nitrogênio contribui para que a palhada permaneça por mais tempo sobre o solo. Isso, porém, não significa que todos os nutrientes sejam liberados lentamente. O potássio pode ser liberado com relativa rapidez, enquanto a disponibilização de nutrientes como nitrogênio e fósforo depende mais diretamente da decomposição dos resíduos e da atividade dos microrganismos do solo.


As culturas de inverno funcionam como uma espécie de “ponte” entre uma safra e outra, captando recursos durante o inverno e deixando parte deles disponível para os cultivos seguintes. Entretanto, dependendo da espécie escolhida, é preciso atentar a suas características da cultura, em caso da canola temos uma baixa relação C/N, isso quer dizer que a palhada degrada mais rapidamente deixando disponível Nitrogênio, Potássio e Enxofre de forma acelerada. 


O trigo tem características de alta relação C/N, ou seja, a palhada fica mais tempo sobre o solo, mas não decompõe, assim os microrganismos não liberam os nutrientes para as culturas futuras na mesma velocidade da cultura da canola, exigindo uma atenção nos momentos iniciais da cultura futura ao trigo. 



Como as raízes contribuem para a estrutura do solo

Os sistemas radiculares do trigo e da canola podem contribuir de maneiras diferentes para a estrutura do solo. 


A canola possui sua raiz pivotante e agressiva, que consegue romper as camadas compactadas do solo, após a colheita, a decomposição das raízes os bioporos, surgem canais abertos que facilitam a infiltração de água nos períodos de seca. 


O trigo, por sua vez, atua na camada superficial, suas raízes fasciculadas agregam as partículas de solo, deixando a superfície fofa, bem estruturada e resistente ao escorrimento de água. 


Figura 3 - Raízes do trigo

Fonte: Portal Embrapa (2025)


Figura 2 - Raízes da canola

Fonte: Portal Embrapa (2018)



A importância de rotacionar

Além dos benefícios físicos, químicos e biológicos proporcionados ao solo, a rotação de culturas é um componente importante do sistema produtivo. Essa prática consiste na alternância planejada de diferentes espécies ao longo do tempo, em uma mesma área, permitindo que uma cultura volte ao talhão após determinado intervalo.


Quando adequadamente planejada, a rotação pode contribuir para interromper o ciclo de determinadas pragas e doenças, diversificar as estratégias de controle de plantas daninhas e aumentar a quantidade e a diversidade de resíduos vegetais adicionados ao solo. Ao longo do tempo, também pode favorecer a matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes, a estrutura do solo e a estabilidade do sistema produtivo. A intensidade desses benefícios depende das espécies utilizadas, da sequência adotada e das condições de cada área.



Texto escrito por Camile Joaquim e Luis Alfredo Feldns Ludke, acadêmicos do curso de Agronomia da UFSM, campus em Frederico Westphalen, membros da empresa júnior AGR Jr. Consultoria Agronômica, sob acompanhamento da coordenadora, professora Dra. Gizelli Moiano de Paula.




Referências

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EMBRAPA. Agência Embrapa de Informação Tecnológica (Ageitec). Rotação de culturas. Árvore do Conhecimento: Soja – Manejo do solo. Brasília, DF: Embrapa, [s. d.]. Disponível em:https://www.embrapa.br/web/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/soja/producao/manejo-do-solo/rotacao-de-culturas .Acesso em: 26 ago. 2026.

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FRANCHINI, J. C.; DEBIASI, H.; BALBINOT JUNIOR, A. A.; CONTE, O.Importância da rotação de culturas para a produção sustentável da soja. Londrina: Embrapa Soja, 2011. (Documentos / Embrapa Soja, n. 327). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/897259 . Acesso em: 26 ago. 26.

GENÉTICA, Biotrigo. Melhoramento do trigo gera alta produtividade. Biotrigo genética, 2019. Disponível em: https://biotrigo.com.br/melhoramento-do-trigo-gera-alta-produtividade/.Acesso em: 08 set. 2026. 

TAKEITI, Cristina Yoshie. Trigo. EMBRAPA, 2021. Disponível em: https://www.embrapa.br/web/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/tecnologia-de-alimentos/processos/grupos-de-alimentos/cereais-e-graos/trigo . Acesso em: 26 ago. 2026. 

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PAULETTI, Elisson Stephânio Savi. Planta de canola com raíz. EMBRAPA, 2018.Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-imagens/-/midia/4441001/planta-de-canola-com-raiz.Acesso em: 08 set. 2026. 

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