As doenças na cultura do milho (Zea mays L.) constituem um dos principais fatores limitantes à produtividade e à estabilidade da produção, sobretudo em regiões onde as condições edafoclimáticas favorecem o desenvolvimento de patógenos. A ocorrência de doenças foliares pode comprometer significativamente o desempenho fisiológico das plantas, reduzindo a área fotossinteticamente ativa, interferindo no enchimento de grãos e, consequentemente, impactando diretamente a produtividade final (EMBRAPA, 2021).
Com a expansão do cultivo do milho no país, associada aos sistemas de plantios sucessivos e à adoção de híbridos geneticamente modificados, os fitopatógenos passaram a representar um desafio crescente no manejo da cultura, atuando como importantes entraves à expressão do potencial produtivo (PEREIRA et al., 2005). Entre os principais agentes causadores de doenças destacam-se os fungos, responsáveis, em sua maioria, por manchas foliares que reduzem a área fotossintética das plantas e contribuem para a diminuição do rendimento (CASA et al., 2007).
Nesse contexto, o controle químico, por meio da aplicação de fungicidas, aliado a práticas complementares como a rotação de culturas e o uso de híbridos resistentes, tem se mostrado uma estratégia eficiente no manejo de doenças do milho. No entanto, diante da complexidade dos fatores que influenciam o desenvolvimento dos fitopatógenos, pesquisadores têm buscado continuamente estratégias mais eficazes de manejo, seja quanto à escolha de princípios ativos, seja quanto ao posicionamento adequado das aplicações.
Em estudo conduzido durante a segunda safra de 2024, em áreas-polo de pesquisa regionalizada da 3tentos, nos municípios de Matupá e Alta Floresta (MT), observou-se que aplicações iniciadas no estádio fenológico V4 (Figura 2A) apresentaram melhor desempenho em relação àquelas realizadas em estádios mais tardios (Figuras 2B e 2C), promovendo maior redução da Área Abaixo da Curva de Progresso da Doença (AACPD) para Bipolaris (Bipolaris maydis) e Diplodia (Stenocarpella maydis) e, consequentemente, incremento na produtividade.
Por que não podemos esperar?
A resposta está na natureza dos fungos, ambas as doenças, Bipolaris e Diplodia, são causadas por fungos necrotróficos, capazes de sobreviver na ausência de hospedeiros vivos, persistindo em restos culturais e no solo. Por estarem presentes no ambiente antes mesmo do estabelecimento da cultura, a infecção tende a ocorrer nos estádios iniciais de desenvolvimento das plantas. Dessa forma, aplicações realizadas precocemente contribuem para prevenir a colonização e o estabelecimento dos patógenos, reduzindo a carga inicial de inóculo no sistema.
Folhas com elevada severidade de lesões necróticas apresentam redução significativa da capacidade fotossintética ou podem sofrer abscisão, fatores que limitam a produção de fotoassimilados e, consequentemente, a produtividade de grãos (Casa et al., 2004; Tomazela et al., 2006).

Figura 1. Média de resultados das áreas polo de Alta Floresta e Matupá/MT do ensaio de diferentes momentos de entrada de fungicida na cultura do milho.
Letras seguidas da mesma, na linha, não diferem significativamente entre si pelo teste de Scott-Knott (P≤0.05)
A aplicação de fungicidas dos grupos químicos dos triazóis e estrobilurinas apresentam maior eficiência de controle quando realizadas de forma preventiva ou nos estágios iniciais do processo infeccioso, evidenciando elevado potencial de controle para o complexo de manchas foliares (COSTA & COTA, 2009). Resultados obtidos em campo indicam que o posicionamento antecipado de fungicidas com ação preventiva tende a reduzir a severidade dessas doenças na cultura do milho, contribuindo para a preservação do potencial produtivo.
O desafio do estresse hídrico
O milho é extremamente sensível à falta de água, especialmente no florescimento, onde o ressecamento dos estigmas pode comprometer a fecundação e, consequentemente, o número de grãos por espiga (Bergamaschi, 1992). Observa-se que, mesmo com a redução da severidade de Diplodia e Bipolaris no tratamento com três aplicações de fungicida (V4, V8 e pré-pendão), não houve incremento de produtividade em relação ao tratamento com duas aplicações (V4 e V8) (Figura 1). Embora ambos os manejos tenham sido iniciados de forma preventiva, esse resultado está associado à ocorrência de déficit hídrico ao longo de todo o ciclo da cultura.

Figura 2. Aplicações em distintos momentos de entrada e número de aplicações. Imagem A: Tratamento com 3 aplicações de fungicida isolado nos estádios de V4, V8 e pré-pendão. Imagem B: Tratamento com 2 aplicações de fungicida, realizada em V8 e pré-pendão. Imagem C: Tratamento com uma aplicação realizada no estádio de pré-pendão
Em outro estudo, realizado na mesma safra no município de Alta Floresta, foram testados diferentes manejos fúngicos na cultura do milho, utilizando três entradas duranteciclo da cultura, sendo nos estádios fenológicos de V4, V8 e pré-pendão.

Figura 3. Resultados do ensaio de manejos de fungicida na cultura do milho.
Neste estudo, foi adotada a rotação de diferentes princípios ativos nos manejos fúngicos avaliados (Figura 3), resultando em incremento no controle de doenças e na produtividade em ambos os tratamentos, quando comparados ao estudo anterior, no qual foram realizadas aplicações isoladas de um mesmo produto.
Dentre os manejos testados, destacou-se aquele em que foram utilizados os fungicidas Piraclostrobina (260 g/L) + Epoxiconazol (160 g/L) – V4; Piraclostrobina (333 g/L) + Fluxapiroxade (167 g/L) – V8; Mefentrifluconazol (200 g/L) + Piraclostrobina (200 g/L) – pré-pendão (Imagem 2C), com a produção de 187,1 sacos por hectares.
Como mencionado anteriormente, os fungicidas dos grupos triazóis e estrobilurinas apresentam maior eficiência quando aplicados de forma preventiva ou no início da infecção, o que justifica seu posicionamento em aplicações iniciais. Por outro lado, o Mefentrifluconazol (Revysol), pertencente ao grupo dos triazóis e recentemente introduzido no mercado, apresenta maior capacidade de adaptação às mutações dos fungos e atuação em diferentes sítios de ação. Por se tratar de uma molécula com menor histórico de exposição, tende a proporcionar maior eficiência no controle de doenças, justificando seu posicionamento no estádio de pré-pendão.
Sua associação com uma estrobilurina (Piraclostrobina) contribui para ampliar o período residual de controle, uma vez que esse grupo atua inibindo a germinação de esporos, bloqueando o desenvolvimento do fungo nos estádios iniciais e apresentando também ação antiesporulante (Venâncio et al., 1999).
A rotação de princípios ativos dentro de um programa de manejo, além de aumentar a eficiência no controle de doenças, reduz a probabilidade de seleção de populações de patógenos resistentes a determinados fungicidas (Brent; Hollomon, 2007).

Figura 4. Manejos com três aplicações de fungicida distintos, nos estádios fenológicos de V4, V8 e pré-pendão. Imagem A: Aplicação A: Piraclostrobina (260 g/L) + Epoxiconazol (160 g/L) / Bacillus pumilus, B. subtilis e B. velezensis; Aplicação B: Piraclostrobina (333g/L) + Fluxapiroxade (167 g/L); Aplicação C: Azostrobina (120 g/L) + Tebuconazol (200 g/L). Imagem B: Aplicação A: Azostrobina (120 g/L) + Tebuconazol (200 g/L); Aplicação B: Mefentrifluconazol (200 g/L) + Piraclostrobina (200 g/L); Aplicação C Piraclostrobina (333g/L) + Fluxapiroxade (167 g/L). Imagem C: Aplicação A: Piraclostrobina (260 g/L) + Epoxiconazol (160 g/L); Aplicação B: Piraclostrobina (333g/L) + Fluxapiroxade (167 g/L); Aplicação C: Mefentrifluconazol (200 g/L) + Piraclostrobina (200 g/L). Imagem D: Aplicação A: Piraclostrobina (333g/L) + Fluxapiroxade (167 g/L); Aplicação B: Mefentrifluconazol (200 g/L) + Piraclostrobina (200 g/L); Aplicação C: Azostrobina (120 g/L) + Tebuconazol (200 g/L).
Os dados obtidos nas áreas-polo de Matupá e Alta Floresta na safra 2024 deixam claro que a produtividades altas não são fruto do acaso, mas de um posicionamento técnico. Observamos que as aplicações iniciadas de forma precoce (V4) apresentaram uma performance superior em comparação às entradas mais tardias. Esse manejo resultou em uma redução drástica na pressão das doenças (AACPD) e, o mais importante, em um incremento real de produtividade. Essa antecipação contribui para que a doença não saia do controle antes da floração. Além disso, a adoção de novas moléculas, associada à rotação de triazóis, estrobilurinas e carboxamidas, é uma forma de assegurar a longevidade das ferramentas de controle e a adaptação às mutações dos fungos.
REFERÊNCIAS
Bergamaschi, H. Desenvolvimento de déficit hídrico em culturas. Agrometeorologia Aplicada à Irrigação. Porto Alegre. Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1992.
Brent, K. J.; Hollomon, D. W. Fungicide resistance in crop pathogens: how can it be managed? Brussels: FRAC, 2007. Disponível em: https://www.frac.info/docs/default-source/publications/monographs/monograph-1.pdf. Acesso em: 24 de julho de 2024.
Casa RT, Reis EM & Blum MMC (2004). Quantificação de danos causados por doenças em milho. In: I Workshop de Epidemiologia de Doenças de Plantas, Viçosa. Anais, UFV.
Casa, R.T.; Bogo, A.; Moreira, E.N.; Junior, P.R.K. Época de aplicação e desempenho de fungicidas no controle da giberela em trigo. Ciência Rural, 2007.
Costa, R. V. Da; Casela, C. A.; Cota, L. V. Doenças. In: CRUZ, J. C. (Ed.). Cultivo do milho. 5. ed. Sete Lagoas: Embrapa Milho e Sorgo, 2009. (Embrapa Milho e Sorgo. Sistemas de produção, 2). Disponível em: https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/cultivos/milho/producao/pragas-e-doencas/doencas/doencas-foliares. Acesso em: 23 de julho de 2024.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Produção de milho em grão. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/producao-agropecuaria/milho-em-grao/br. Acesso em: 20 de agosto de 2024.
Pereira, O.A.P; Carvalho, R.V. De,; Camargo, L.E.A. Doenças Do Milho. In: Kimati, H.; Amorim, L.; Rezende, J.A.M.; Bergamin Filho, A.; Camargo, L.E.A. Manual de Fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. São Paulo: Agron. Ceres, 2005.
Venancio, W.S.; Zagonel, J.; Furtado, E.L.; Souza, N.L. Novos fungicidas. I – Produtos naturais e derivados sintéticos: estrobilurinas e fenilpirroles. Revisão anual de patologia de plantas. 1999.
Tomazela AL, Favarin JL, Fancelli AL, Martin TN, Dourado Neto D & Reis AR (2006). Doses de Nitrogênio e Fontes de Cu e Mn suplementar sobre a severidade da Ferrugem e Atributos morfológicos do milho. Revista Brasileira de Milho e Sorgo, 5:192. Disponível em: https://rbms.abms.org.br/index.php/ojs/article/view/182/pdf_240. Acesso em: 24 de julho de 2024.