O solo é o principal reservatório hídrico da lavoura. Quando bem manejado, ele reduz o escorrimento superficial e maximiza a infiltração de água no perfil. (Bertol et al., 2006, Revista Brasileira de Ciência do Solo). Nesse contexto, o uso de mix de coberturas, combinações de plantas, exercem a função de proteger, estruturar e enriquecer o solo, garantindo um sistema produtivo resiliente e equilibrado para a safra de verão. (Bertol et al., 2013; Calegari et al., 2013, Embrapa).
Veranicos são frequentes durante a safra, expondo as lavouras a estiagens severas. Nesses períodos, qualquer reserva adicional de água no solo impacta diretamente o rendimento final.
A cultura da soja, por exemplo, exige entre 7 e 8mm/dia durante o florescimento. Como as chuvas são irregulares, a disponibilidade hídrica diminui rapidamente conforme os dias passam desde a última precipitação. Por isso, adotar estratégias de baixo investimento para armazenar água no solo e melhorar sua estrutura física é fundamental para garantir a produtividade da colheita.
Misturar espécies como gramíneas, leguminosas e crucíferas transforma a saúde do solo. Essa diversidade aumenta a matéria orgânica e a vida microbiana, melhorando a estrutura para o armazenamento de água. É importante ressaltar que a matéria orgânica possui grupos químicos que favorecem a retenção e atração das moléculas de água, além de que ela tem grande área superficial e pode reter até 20 vezes o próprio peso em água.
Para entender como essa diversidade atua na prática, veja as funções específicas que cada família desempenha na estruturação e fertilidade do sistema:
| Gramíneas (aveia preta, centeio, milheto) | Leguminosas (ervilhaca, crotalária, feijão-guandu) | Crucíferas (nabo forrageiro) |
| Produzem grande quantidade de palhada | Fixação biológica de nitrogênio atmosférico | Favorece o crescimento radicular das culturas seguintes |
| Proteção eficiente contra erosão e evaporação | Estímulo intenso à atividade microbiana | Rompimento de camadas compactadas |
| Formação de numerosos microporos no solo | Raízes profundas, formando bioporos permanentes | Melhora da infiltração e aeração do solo |
| Aumento da matéria orgânica estável | Aumento da fertilidade do solo | Reciclagem de nutrientes, especialmente enxofre e nitrogênio |
A partir da utilização de mixes de cobertura a planta como um todo auxilia na manutenção da água no solo.
A palhada dos mixes de cobertura funciona como um isolante térmico que barra a radiação solar direta, reduzindo a evaporação e estabilizando a temperatura do solo. Além disso, ela amortece o impacto das chuvas, evitando o selamento superficial e maximizando a infiltração. Esse processo favorece a estabilidade dos agregados e o aumento da matéria orgânica, resultando em um sistema com maior eficiência hídrica e resiliência a estiagens (Franchini et al., 2011, Embrapa Soja).
Ao crescerem as raízes atuam promovendo a descompactação e a formação de bioporos, que aumentam a infiltração e o armazenamento de água, além de facilitarem a penetração de raízes. A liberação de substâncias por essas raízes serve de alimento para microrganismos, intensificando a ciclagem de nutrientes. Após sua decomposição, deixam canais permanentes que melhoram a porosidade e a aeração do solo (Sá et al., 2001; Carvalho & Amabile, 2006, Embrapa).

Fonte: Prof. Dr. Antonio Luiz Santi
O uso de mixes de cobertura é mais do que uma decisão técnica, é uma estratégia capaz de gerar impactos econômicos diretos e indiretos no sistema produtivo. Ao armazenar mais água no solo proporciona a redução das perdas de produtividade causadas pelas estiagens, promovendo maior estabilidade do solo resultando na redução da necessidade de insumos. Assim, ao investir na cobertura através desse mixes significa estar reduzindo riscos, preservar o potencial da área e aumentar a rentabilidade da propriedade.
Texto escrito por Luani Aparecida Calegari e Ricardo Carlos Remos, acadêmicos do curso de Agronomia da UFSM campus Frederico Westphalen, membros do Programa de Educação Tutorial - PET Ciências Agrárias, sob acompanhamento do tutor, professor Dr. Claudir José Basso.
Bibliografia
BERTOL, I.; et al. Infiltração de água em dois solos cultivados no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 30, n. 2, p. 299–306, 2006.
BERTOL, I.; et al. Propriedades físicas do solo sob diferentes coberturas vegetais. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 37, n. 3, p. 640–650, 2013.
CALEGARI, A.; et al. Plantas de cobertura e rotação de culturas no sistema plantio direto. Brasília, DF: Embrapa, 2013.
FRANCHINI, J. C.; DEBIASI, H.; BALBINOT JUNIOR, A. A.; TONON, B. C.; FARIAS, J. R. B. Importância das plantas de cobertura na melhoria da qualidade do solo no sistema plantio direto. Londrina, PR: Embrapa Soja, 2011. (Documentos / Circular Técnica).
SÁ, J. C. M.; CERRI, C. C.; PICCOLO, M. C.; FEIGL, B. J. Matéria orgânica do solo e qualidade do solo em sistemas de manejo conservacionista. In: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Matéria orgânica do solo: ecossistemas tropicais e subtropicais. Porto Alegre: SBCS, 2001. p. 419–470.
Imagem capa: Raix/reprodução internet

















