O percevejo é uma praga polífaga com alta capacidade de dispersão, tendo potencial danoso especialmente no período vegetativo da cultura do milho (Zea mays). Realiza a introdução do seu aparelho bucal sugador, a fim de succionar a seiva da planta e seus nutrientes, logo compromete tanto a produtividade quanto qualidade de grãos produzidos.
A presença de percevejos na cultura do milho se torna um alerta para os produtores, pois logo após a emergência da cultura, o percevejo-barriga-verde(Dichelops melacanthus) inicia sua alimentação, justamente no período de maior susceptibilidade do milho.

Percevejo barriga verde (Dichelops melacanthus) Fonte: RuralTec TV
Logo após a emergência, na fase conhecida no campo como “milho no palito”, as plântulas são especialmente sensíveis ao ataque do percevejo-barriga-verde. O inseto se alimenta próximo à base da planta, introduzindo seus estiletes nos tecidos do colmo. Durante a alimentação, a maioria dos indivíduos permanece com a cabeça voltada para baixo. Estudos demonstraram que o percevejo pode ingerir seiva do xilema e romper células do parênquima durante esse processo (BIANCO, 2004; GRIGOLLI et al., 2016).
A intensidade dos danos depende do estádio da planta e da população presente na área. À medida que as folhas se desenvolvem, as lesões podem aparecer como perfurações e deformações. O ataque também pode reduzir o crescimento e o vigor das plantas e, em situações mais severas, atingir o ponto de crescimento, causar a morte das plântulas e reduzir o estande da lavoura. (BUENO et al., 2015).
Nos casos mais severos a planta apresenta distúrbios fisiológicos como perfilhamento e encarquilhamento, por sua vez, esses danos podem ocorrer até o estádio vegetativo nomeado “V4”, onde as plantas apresentam 4 folhas completamente expandidas (CRUZ; VIANA; BIANCO, 2011).

Danos causados pelo percevejo em milho na emergência. Fonte: autores.
Durante o período reprodutivo do milho, as espigas também podem ser atacadas pelo percevejo-do-milho ou percevejo-gaúcho (Leptoglossus zonatus). Ninfas mais desenvolvidas e adultos inserem seus estiletes nos grãos em formação para se alimentar, podendo comprometer o peso e a qualidade dos grãos. A atenção deve ser ainda maior nos campos de produção de sementes, nos quais os danos podem afetar os padrões de qualidade exigidos para a comercialização.

Percevejo gaúcho (Leptoglossus zonatus) Fonte: RuralTec TV
E onde está o percevejo antes da emergência do milho?
Entre a colheita da cultura antecessora e a emergência do milho, o percevejo pode permanecer na própria área, protegido sob a palhada e outros resíduos culturais. Grãos perdidos durante a colheita, plantas voluntárias e algumas plantas daninhas podem servir como fontes de alimento, favorecendo a sobrevivência do inseto até o estabelecimento da cultura seguinte.
Dependendo do sistema de produção, os percevejos remanescentes podem ser encontrados em culturas de inverno, plantas de cobertura, plantas voluntárias e espécies daninhas presentes na área. Essas plantas, porém, não desempenham necessariamente a mesma função. O trigo pode atuar como hospedeiro do percevejo-barriga-verde, enquanto a aveia-preta e algumas plantas daninhas podem fornecer alimento, água ou abrigo sem permitir que o inseto complete todo o seu ciclo.
Outra característica desse inseto é a presença de diapausa,estado caracterizado pela redução da atividade reprodutiva e pela manutenção de alimentação periódica. Isso, entretanto, não significa que o inseto permaneça enterrado no solo. Após a colheita, os percevejos-barriga-verde podem abrigar-se sob a palhada e ocorrer em áreas de vegetação próximas às lavouras (CHOCOROSQUI; PANIZZI, 2003; CHIARADIA, 2012).
Conhecer os locais de permanência da praga permite identificar possíveis fontes de infestação e antecipar sua ocorrência na cultura. Dessa forma, o monitoramento das áreas antes da implantação do milho torna-se uma parte importante da estratégia de manejo e tomada de decisão para o controle dessa praga (MEINERS, 2015).
Dispersão e monitoramento do inseto
A avaliação deve começar antes da semeadura, com a inspeção da palhada e da vegetação presente no talhão. Depois da emergência do milho, o acompanhamento precisa ser intensificado nos primeiros estádios vegetativos, período em que as plantas são mais suscetíveis aos danos. A observação pode ser feita preferencialmente nas primeiras horas da manhã e diretamente na base das plantas, pois os percevejos tendem a se abrigar nos períodos mais quentes do dia.
Áreas de divisa com lavouras de culturas de inverno geralmente apresentam migração do inseto de maneira mais precoce em detrimento de áreas dessecadas e/ou áreas de mata nativa. Isso ocorre devido ao trigo e a aveia serem alimentos com menores teores de proteína comparados com o milho logo após a emergência e o fato de permanecerem expostos a predadores durante sua alimentação nas espigas de trigo e aveia (CASTILHOS et al. 2021).
O início do monitoramento dos percevejos na cultura do milho deve ser realizado antes da semeadura, considerando-se infestada a lavoura que apresentar 2 percevejos por m², sendo necessário o controle antes da semeadura (CRUZ; VIANA; BIANCO, 2011). Devido à dificuldade de monitoramento do inseto antes da semeadura da cultura, a pesquisa recomenda a aplicação de inseticidas de choque (carbamatos e organofosforados) durante a dessecação da palhada. Os mesmos autores afirmam que o monitoramento após a emergência da cultura é crucial, sendo realizados nas horas mais amenas do dia, período em que a praga permanece mais ativa, seu ataque na cultura pode gerar perdas de 25% até a morte da planta afetada.
Como os maiores danos da praga são ocasionados na cultura do milho até V4, período que varia entre 15 e 20 dias após a emergência de acordo com a temperatura (BARBOSA et al., 2019), faz-se necessário o controle químico sequencial dos insetos para evitar danos às plantas e prejuízos financeiros.
A aplicação de inseticidas visando manejo de percevejo mais importante é a primeira aplicação, no estádio VE emergência ou “palito”, quando até 30% das plantas já estão emergidas (MARTINS et al. 2009).
O manejo deve ser orientado pelo monitoramento antes e depois da emergência. Quando a intervenção química for tecnicamente necessária, devem ser utilizados somente produtos registrados para a cultura e para a praga, seguindo a bula e o receituário agronômico.
Cardoso et al. (2024) ao testar épocas de aplicação e diferentes produtos para manejo de percevejo barriga verde no milho, constataram que o tratamento de sementes embora colabore no manejo, não é uma eficiente ferramenta se usada isolada.
O mesmo resultado foi encontrado por Brustolin, Bianco e Neves (2011) que também encontraram controle insatisfatório com o uso isolado do tratamento de sementes para manejo de percevejos, o que pode ser explicado pela diluição da dose de inseticida entre a planta e o solo e a necessidade do inseto se alimentar de muitas plantas para ingerir uma dose letal de inseticida.
Os mesmos autores concluíram que o melhor controle é obtido quando as estratégias de manejo são integradas, tais como dessecação da cobertura com inseticidas, tratamento de sementes e aplicações sequenciais de inseticidas dentro da cultura do milho até o estádio V4 são necessárias para evitar as perdas de produtividade.
Texto escrito por Eduardo Pertile e Thaís Camila Griebler, acadêmicos do curso de Agronomia da UFSM campus Frederico Westphalen, membros do Programa de Educação Tutorial - PET Ciências Agrárias, sob acompanhamento do tutor, professor Dr. Claudir José Basso.
FONTES:
ÁVILA, Crébio José. Manejo integrado das principais pragas que atacam a cultura do milho no país.
BARBOSA, André et al. Reaplicação de nitrogênio na mitigação do efeito da desfolha em diferentes fases fenológicas do milho. Revista Brasileira de Milho e Sorgo, v. 18, n. 1, p. 30-46, 2019.
BRUSTOLIN, C.; BIANCO, R.; NEVES, P. M. O. J. Inseticidas em pré e pós-emergência do milho (Zea mays L.), associados ao tratamento de sementes, sobre Dichelops melacanthus (Dallas) (Hemiptera: Pentatomidae). Revista Brasileira de Milho e Sorgo, Sete Lagoas, v. 10, n. 3, p. 215–223, 2011.
CASTILHOS, R. V.; RIBEIRO, L. P.; CARVALHO, G. Ritmo circadiano de alimentação do percevejo barriga-verde em cultivos de milho. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 56, 2021.
ENGEL, Eduardo et al. Populações de percevejos barriga-verde [Dichelops furcatus (Hemiptera: pentatomidae)] em diferentes diâmetros de plantas silvestres durante entressafra de soja e milho. Revista de Ciências Agrárias, v. 60, n. 2, p. 206-209, 2017.
MARTINS, G. L. M.; TOSCANO, L. C.; TOMQUELSKI, G. V.; MARUYAMA, W. I. Controle químico do percevejo barriga-verde Dichelops melacanthus (Hemiptera: Pentatomidae) na cultura do milho. Arquivos do Instituto Biológico, São Paulo, v. 76, n. 3, p. 475-478, 2009.
MARUYAMA, W. I; PINTO, A. de S; GRAVENA, S. Parasitóides de ovos de percevejos (Hemiptera: Heteroptera) em plantas daninhas. Revista Ceres, v. 49, n. 284, 2002.
MEINERS, T. Chemical ecology and evolution of plant–insect interactions: a multitrophic perspective. Current Opinion in Insect Science, v. 8, n. 1, p. 22-28, 2015.
PANIZZI, A. R.; LUCINI, T. Body position of the stink bug Dichelops melacanthus (Dallas) during feeding from stems of maize seedlings. Brazilian Journal of Biology, v. 79, n. 2, p. 304–310, 2019.
PELIZAN, Ramon Probst et al. MANEJO DO PERCEVEJO BARRIGA-VERDE NA CULTURA DO MILHO. Revista Inovação: Gestão e Tecnologia no Agronegócio, v. 3, p. 309-339, 2024.
PEREIRA, Júlio César. Antecipe: sistema de plantio intercalar antecipado do milho (Zea mays) segunda safra com dois métodos de adubação (sulco incorporado e a lanço). 2026.








