As aplicações de defensivos agrícolas em climas quentese secos vêm sendo um dos maiores desafios da agricultura atual, devido às altas temperaturas e a baixa umidade relativa do ar. Esse contexto favorece a evaporação das gotas e aumentam a deriva, reduzindo a eficiência da aplicação de defensivos, pois diminui a dose aplicada e causa contaminações em áreas vizinhas (MACIEL et al., 2018; GODINHO Jr. et al., 2020; WANG et al., 2023).
Essas perdas não estão relacionadas apenas ao clima, mas também à forma como o pulverizador é regulado. A manutenção adequada dos pulverizadores se torna essencial para minimizar perdas e garantir qualidade operacional, conforme orientado por normas técnicas e manuais de máquinas agrícolas (MARTINI, 2017; RUSSINI et al., 2023).
Em cenários de clima quente e seco, ajustes finos na pressão de trabalho e na seleção dos bicos são decisivos para minimizar a evaporação e a deriva, aumentando a segurança e a eficiência operacional. Por isso, entender como os fatores meteorológicos influenciam o comportamento das gotas é essencial para melhorar a qualidade da aplicação em períodos adversos.
Temperatura, umidade e vento: o trio que comanda as boas práticasda pulverização
A temperatura do ar é um fator limitante da pulverização, devendo ser no máximo de 30 °C.
Em altas temperaturas, o tempo de evaporação da gota diminui de 15 segundos a 20 °C para aproximadamente 5 segundos a 30 °C, consequentemente diminuindo o volume que chega ao alvo (Mais Soja, 2023).
Em situações em que a umidade relativa se encontra abaixo de 50%, o processo de evaporação se acelera, aumentando o risco de deriva, especialmente quando se trabalha com gotas mais finas. Nessas condições, torna-se ainda mais importante ajustar a tecnologia de aplicação para reduzir perdas, com limite mínimo de 50%, em valores a baixos disso a evaporação acelera e aumenta a deriva das gotas, conforme apontado pela EMBRAPA em estudos sobre tecnologia de aplicação.
O vento também merece atenção constante. Velocidades superiores a 10 km/h favorecem o arraste das gotas para fora da área-alvo, principalmente daquelas que já tiveram seu diâmetro reduzido pela evaporação. Por outro lado, velocidades muito baixas, abaixo de aproximadamente 3 km/h, podem indicar ocorrência de inversão térmica. Nessas situações, o ar não se mistura verticalmente, fazendo com que gotas finas permaneçam suspensas e se desloquem horizontalmente, podendo atingir áreas sensíveis fora do alvo.
Em um cenário em que o produtor está na lavoura sem um instrumento para medir a velocidade do vento, recomenda-se realizar a pulverização apenas quando houver leve balançar das folhas das árvores.
Inovações nos bicos de pulverização, segurança mesmo em condições climáticas desafiadoras
Entre as tecnologias disponíveis para reduzir os efeitos da evaporação e da deriva em pulverizações agrícolas, destacam-se os bicos de indução de ar.
Eles possuem um sistema interno que succiona o ar atmosférico e o mistura na calda antes que ela saia pelo orifício aumentando o peso da gota, assim reduzindo drasticamente a quantidade de gotas finas. Eles garantem que a maior parte do volume aplicado atinja o alvo com menor risco de perdas, estendendo a janela de aplicação para momentos onde as condições climáticas estão no limite.
Outra alternativa amplamente utilizada são os bicos de baixa deriva. Esses modelos contam com pré-orifícios que reduzem a pressão interna antes da formaçãodo jato fazendo com que as gotas formadas sejam maiores e mais pesadas, reduzindo a perda do produto pelo vento e pela evaporação.
Ambos os modelos de bicos servem como um reforço à segurança da aplicação em relação às pontas convencionais.
Manutenção do pulverizador para garantia da eficiência operacional
As manutenções dos equipamentos são indispensáveis para assegurar que ele opere demodo ideal. Os desgastes nas pontas, causadospor abrasão, corrosão e cavitação sob pressões elevadas, aumenta a vazão, gerando dificuldades na regulagem e a formação de gotas mais finas, mesmo sem mudar a pressão (EMBRAPA, 2020).
As pontas não devem apresentar uma variação maior que 10% (para mais ou para menos) em relaçãoa média de vazão total, caso isso ocorra todo o conjunto de pontas deve ser substituído imediatamente, para não comprometer a taxa de aplicação, e aumentar o risco de subdosagens ou superdosagens na lavoura. Essa manutenção é essencial para garantir deposição adequada e segurança operacional, conforme recomendam manuais técnicos de fabricantes e instituições de referência (EMBRAPA, 2020).
Além disso, operar com a pressão no limite inferior recomendado pelo fabricante, associada ao uso de pontas de Indução de Ar (AI) ou Baixa Deriva(LD), constitui uma estratégia essencial para manter as gotas maiores e mais pesadas, minimizando a evaporação e reduzindo a deriva. Sob condições climáticas desfavoráveis, essa combinação é considerada a abordagem mais eficiente para garantir a eficácia da proteção fitossanitária (EMBRAPA, 2020).
Vale lembrar que os bicos e/ou pontas são avaliados e testados em laboratório somente com água, ao contrário do nível de campo existem as misturas de tanque que podem causar desgastese reduzir a vida útil desses bico/pontas, por isso, a necessidade de avaliação após um período de uso. Lembrando que o pulverizador é o equipamento que mais entra na lavoura durante o ciclo de uma cultura e onde vai uma parcela significativa do custo de produção, por isso de uma atenção mais com relação a sua manutenção.
Texto escrito por Luani Aparecida Calegari e Márlon Ribeiro Feldens, acadêmicos do curso de Agronomia da UFSM campus Frederico Westphalen, membros do Programa de Educação Tutorial - PET Ciências Agrárias, sob acompanhamento do tutor, professor Dr. Claudir José Basso.
REFERÊNCIAS:
MACIEL, C. F. S.; TEIXEIRA,M.; FERNANDES, H. C.; ZOLNIER,S.; CECON, P. Droplet spectrum of
a spray nozzle under differentweather conditions. RevistaCiência Agronômica, v. 49, n. 3, p. 430-436, jul./set. 2018. DOI: 10.5935/1806-6690.20180048. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rca/a/754F8H8MmXyVb7gspRTRwcf/?format=html&lang=en. Acesso em: [03/11/2025].
GODINHO Jr., J. D.; VIEIRA, L. C.; RUAS, R. A. A. Spray nozzles,working pressures and use of adjuvant in reduction of 2,4-D herbicide spray drift. Planta Daninha, v. 38, e020223622, 2020.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/pd/a/HF335gtdcZJb9v8bRnJxz5K/?format=html&lang=en. Acesso em: [04/11/2025].
MARTINI, Alfran Tellechea. Inspeção técnicade pulverizadores agrícolasconforme a norma ISO 16122. 2017. 190 f. Tese (Doutor em Engenharia Agrícola) — Programa de Pós-Graduação em Engenharia Agrícola, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/handle/1/11349. Acesso em: [04/11/2015].
RUSSINI, Alexandre; MARTINI, Alfran Tellechea; BRANDELERO, Catize; HERZOG, Daniela; SCHLOSSER, José Fernando; FARIAS, Marcelo Silveira; BERTINATTO, Rovian; WERNER,Valmir. Manual de regulagens e manutenção de máquinas agrícolas. Santa Maria, RS: Editora UFSM, 2023. 192 p. Disponível em:
https://www.ufsm.br/cursos/pos-graduacao/santa-maria/ppgea/2024/07/11/manual-de-regulagens-e-m anutencao-de-maquinas-agrícolas. Acesso em: [04/11/2025].
WANG, Shilin; LI, Xinjie; NUYTTENS, David; ZHANG, Lanting; LIU, Yajia; LI, Xue. Evaluation of compact air-induction flat-fan nozzles for herbicide applications: spray drift and biological efficacy. Frontiers in PlantScience, v. 14, 1018626, 3 Feb. 2023.DOI: 10.3389/fpls.2023.1018626. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9936156/?utm_source. Acesso em: [05/11/2025].
MAIS SOJA. Aplicação de defensivos agrícolas: temperatura é fator decisivo. 2023. Disponível em: https://maissoja.com.br/aplicacao-de-defensivos-agricolas-temperatura-e-fator-decisivo/. Acesso em: 26 nov. 2025.
EMBRAPA. Eficiência da aplicação de agrotóxicos. AgênciaEmbrapa de Informação Tecnológica – Ageitec. Disponível em:
https://www.embrapa.br/agencia-de-informacao-tecnologica/tematicas/agricultura-e-meio-ambiente/qu alidade/tecnologia/eficiencia-da-aplicacao
. Acesso em: 26 nov. 2025.
EMBRAPA. Manual de Tecnologia de Aplicação de Agrotóxicos. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente, 2020. 198 p.
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